A trajetória da Fiasul na contratação e na integração de migrantes e refugiados foi tema da reportagem premiada na 11ª edição do Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo, cuja cerimônia aconteceu na noite de quarta-feira (26), em Curitiba, durante a Expo + Indústria. O texto "A Nova Fronteira da Produtividade: Depois das Máquinas Inteligentes, a Revolução Chega aos Recursos Humanos", assinado pela jornalista toledana Edna Nunes da Silva, foi premiado na categoria Jornalismo Independente.

Foi ao contar a história da Fiasul que a jornalista trouxe o prêmio para Toledo. A edição de 2026 do Fiep teve como tema a produtividade na indústria do Paraná e recebeu 160 trabalhos inscritos. Ao longo de suas onze edições, o prêmio já reuniu mais de 1,5 mil reportagens e reconheceu cerca de 200 jornalistas.

Uma decisão que começou antes de virar tendência

A Fiasul começou a contratar trabalhadores migrantes quando o tema ainda não figurava nas pautas de gestão nem nos indicadores de competitividade da indústria. A empresa foi construindo, ano após ano, um processo próprio de recrutamento, integração e acompanhamento desses profissionais dentro do chão de fábrica. Hoje, aproximadamente 48% dos colaboradores contratados recentemente pela empresa são migrantes internacionais. São trabalhadores de diferentes países que dividem linhas de produção, turnos, metas e responsabilidades. O que em muitas empresas ainda é tratado como desafio operacional tornou-se, na Fiasul, parte da estratégia de crescimento.

Essa consistência transformou a companhia em referência. A experiência da Fiasul é hoje observada não apenas por indústrias paranaenses, mas por empresas de outros estados que enfrentam o mesmo cenário de escassez de mão de obra e buscam modelos já testados de acolhimento e integração.

A leitura do CEO Rainer Zielasko é a de que essa mudança ampliou o próprio conceito de inovação dentro da companhia. Segundo ele, os anos de investimento em equipamentos, processos e tecnologia continuam, mas a empresa aprendeu que produtividade também depende da capacidade de integrar pessoas. Quando culturas diferentes conseguem trabalhar juntas, avalia o executivo, a companhia amplia sua capacidade de inovar, crescer e responder aos desafios do mercado.

A doação que devolveu a voz aos trabalhadores

Foi por meio da doação da empresária e palestrante Fabiana Zielasko que a rotina de atendimento a migrantes e refugiados na região mudou. Ela entregou à Associação Embaixada Solidária um equipamento de tradução simultânea com inteligência artificial, capaz de trabalhar com praticamente qualquer idioma e que pesa menos de duzentos gramas. Em uso há seis meses, o aparelho permite que a Embaixada Solidária faça a tradução do público que atende, oriundo de 47 países, antes que essas pessoas sejam encaminhadas às vagas de trabalho. Dezenas de trabalhadores já foram ouvidos com o apoio da tecnologia. O mesmo equipamento também intermediou interpretações em consultas médicas, em partos e em outros atendimentos.

O gesto teve alcance que poucos investimentos sociais alcançam. Um aparelho que cabe na mão devolveu a migrantes e refugiados o direito de ser, de falar e de serem ouvidos. Quem chega ao Brasil sem dominar a língua costuma ser reduzido a um formulário preenchido por outra pessoa, a um resumo feito por terceiros, a uma versão sempre aproximada da própria história. Com a tradução simultânea, o trabalhador volta a falar em primeira pessoa.

O RH na linha de frente

A reportagem premiada acompanhou uma entrevista de emprego conduzida por Karen Brinker, responsável pelo RH da Fiasul, com a jovem haitiana Marie Natascha, de 19 anos. Entre as duas havia apenas um telefone celular fazendo a tradução. "É como se eu estivesse no meu país", disse a candidata. A cena ilustra a mudança de papel que o setor de Recursos Humanos assumiu dentro da indústria. Recrutar deixou de significar apenas selecionar profissionais disponíveis para vagas existentes. Passou a significar criar condições para que esses profissionais possam ser encontrados, compreendidos e integrados às equipes com rapidez.

"A falta de mão de obra deixou de ser apenas um desafio dos Recursos Humanos. Ela passou a ser um desafio da produtividade. Cada vaga que permanece aberta significa uma linha de produção operando abaixo do seu potencial, uma equipe trabalhando sob maior pressão e uma oportunidade de crescimento que a indústria deixa de aproveitar. Quando eliminamos a barreira do idioma, não estamos apenas facilitando uma entrevista de emprego. Estamos recuperando talentos que, muitas vezes, eram perdidos no primeiro contato", afirmou Karen Brinker à reportagem.

Sob a condução do RH, a empresa estruturou treinamentos de integração e de segurança compreendidos pelos trabalhadores desde os primeiros dias, o que reduz falhas de comunicação e acelera a adaptação de quem chega.

Números que explicam o cenário

Levantamento do Programa Oeste em Desenvolvimento aponta mais de 22 mil vagas abertas na indústria da região Oeste. Ao mesmo tempo, dados do Observatório Regional de Governança Migratória mostram que o Paraná liderou, em 2025, a geração de empregos formais para trabalhadores migrantes no Brasil, com saldo de 21.023 novos vínculos. A indústria de transformação foi o setor que mais absorveu essa mão de obra.

Indústria Acolhedora e a parceria com a Embaixada Solidária

O trabalho da Fiasul é desenvolvido em parceria com o SESI, do Sistema Fiep, por meio do Programa Indústria Acolhedora, e com a Associação Embaixada Solidária, que atende migrantes e refugiados em Toledo há doze anos.

O Indústria Acolhedora deu escala e método a uma tarefa que, até então, muitas empresas resolviam de forma improvisada. O programa prepara a indústria para receber o trabalhador migrante, orienta lideranças e equipes, organiza a integração e trata a diversidade como questão de gestão, não como concessão. Para companhias que enfrentam falta de mão de obra, o resultado é objetivo: menos rotatividade, adaptação mais rápida e vagas preenchidas com quem já está na região e quer trabalhar. Do outro lado dessa ponte está a Embaixada Solidária. A ONG faz o primeiro atendimento, escuta a história de quem chega, identifica formação e experiência anteriores, organiza documentação e encaminha o trabalhador à vaga. É nesse ponto que a tecnologia doada por Fabiana Zielasko se tornou decisiva, porque permite que essa escuta aconteça no idioma de origem, antes do encaminhamento.

A soma das três frentes, empresa, programa e ONG, é o que dá consistência ao modelo. A Fiasul oferece a vaga e a estrutura de integração, o Indústria Acolhedora qualifica o processo dentro da fábrica e a Embaixada Solidária garante que o trabalhador chegue compreendido. Foi esse arranjo que a reportagem premiada retratou e que hoje é observado por outras indústrias como referência de acolhimento no Paraná e no Brasil.

Ao final da reportagem premiada, a jornalista recorre a uma imagem para resumir o que observou na empresa:

"Em 1936, Charles Chaplin mostrou uma indústria que buscava adaptar o homem às máquinas para produzir mais. Quase noventa anos depois, a indústria paranaense começa a demonstrar que a próxima fronteira da produtividade talvez dependa do movimento inverso: utilizar a tecnologia para adaptar os processos às pessoas."

Com o reconhecimento recebido em Curitiba, Edna Nunes da Silva chega ao décimo oitavo prêmio de sua carreira, entre jornalismo e literatura, e é a terceira vez que ela vence o Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo.

Fiasul
loading Aguarde...

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o nosso site e as páginas que visita. Tudo para tornar sua experiência a mais agradável possível. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com o monitoramento descrito em nossa Política de Privacidade.